Claudio Aráoz: Por que as grandes decisões sobre pessoas são tão difíceis?
Avaliar as pessoas é difícil, nosso cérebro não está preparado e as probabilidades não estão a nosso favor.
Segundo Claudio Fernández-Aráoz, palestrante do Fórum HSM de Gestão e Liderança 2011, há três grandes razões que demonstram porque as decisões sobre pessoas são tão difíceis:
1) A probabilidade de dar erro já é contra nós
Naturalmente, é muito difícil avaliar pessoas.
Em muitos casos, existe somente um pequeno número de profissionais excepcionais em uma área, um setor ou um assunto. O que aumenta a probabilidade de contratarmos um profissional médio, em vez de um profissional diferenciado. É essencial identificar, atrair e reter os talentos.
Num exercício de impacto dos erros de avaliação, se um entrevistador tem, historicamente, 90% de precisão e é necessário contratar apenas os dez melhores de um grupo de 100 pessoas, então teremos o seguinte quadro:
Em função da precisão de 90% do entrevistador, do grupo de dez melhores, nove serão identificados e retidos e um será eliminado. Da mesma forma, do grupo de 90 piores, 81 serão eliminados e nove serão retidos. Ou seja, haverá um total de 18 mantidos, mas desses, somente nove estarão entre os dez melhores. Um erro de 50%!
Temos que saber escolher, também, essa “elite”. Muitas pessoas acham que estão entre os “dez melhores”, por isso a importância de uma adequada avaliação. Por exemplo: de cada 100 norte-americanos, 90 acham que estão entre os “dez melhores” (no caso das mulheres, 89).
Para complicar ainda mais, as funções, exigências e prioridades, principalmente no alto escalão, podem mudar rapidamente, em função de mudanças econômicas, políticas, competitivas ou tecnológicas. Mais um ponto a ser avaliado.
2) Temos o cérebro errado
Como contratar as pessoas certas? O homem tem dois milhões de anos de existência, mas o cérebro não teve nenhum “upgrade” nos últimos dez mil anos.
As decisões do homem primitivo eram muito centradas na sobrevivência. “Às vezes eu fujo e às vezes eu ataco”; isso valia para a obtenção de alimento. Nos relacionamentos, as escolhas sempre se guiaram por três fatores: semelhança, familiaridade e conforto. “Só estamos aqui hoje porque nossos ancestrais tomaram as decisões corretas”, diz Claudio Fernández-Aráoz.
É muito importante que, na escolha de pessoas para a equipe, busquemos a diversidade, no sentido de habilidades e conhecimentos complementares. No entanto, como escolhemos, na maior parte das vezes, por semelhança, familiaridade e conforto, o cérebro “sabota” nossa avaliação e chegamos a decisões equivocadas.
Nessa questão do cérebro velho para um trabalho novo, há alguns itens que mostram claramente esse posicionamento:
- Procrastinação
O ser humano é muito dado a adiamentos, ao “vai levando”, a deixar as coisas para depois. Isso faz com que demoremos para demitir um funcionário ruim ou para contratar um funcionário novo, com medo de errar.
- Superestimação da capacidade
Temos a tendência de achar que as pessoas são melhores do que são – porque também achamos que somos melhores do que somos. “Uma entrevista é uma conversa entre dois mentirosos”, salienta Claudio Fernández-Aráoz. É difícil julgar pessoas.
- Rotulação
Não podemos achar que as pessoas são capacitadas ou competentes apenas pela “fama” ou por terem trabalhado em empresas renomadas.
- Avaliação de pessoas em termos absolutos
Não podemos avaliar alguém sem compreender o contexto, o ambiente, fatores externos etc.
- Recorrência a informações confirmatórias
Nem sempre isso ajuda. Às vezes, desvia o nosso olhar e esconde evidências.
- Tentativas de salvar as aparências
Outra tendência do ser humano, quando percebe o fracasso.
- Apego ao familiar
É uma herança do homem primitivo. É mais cômodo escolhermos por semelhança, familiaridade e conforto do que buscarmos competência e capacidade.
- Ancoragem emocional
É quando comparamos a pessoa a alguém familiar, e não avaliamos os méritos de cada um.
- Gregarismo (tendência de vivermos em bando)
Muitas vezes, imitamos a maioria ou deixamos de fazer alguma coisa que possa incomodar os outros.
3) Não estudamos sobre o assunto
Na maior parte das vezes, iniciamos e avançamos em nossas carreiras sem efetivamente estudar sobre como decidir sobre pessoas.
Sabemos que, hoje, os ativos intangíveis são pontos que pesam enormemente na avaliação de nossa empresa por clientes e pela sociedade em geral. Atualmente, estudos indicam que 70% do valor de uma empresa referem-se aos ativos intangíveis – onde se inclui a gestão de pessoas. Mesmo assim, não estudamos sobre como tomar grandes decisões sobre pessoas.
Portal HSM
07/04/2011
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